MARAB, PA - O Ministrio da Justia encontrou indcios de que parte dos 19 sem-terra mortos pela Polcia Militar do Par podem ter sido executados. Vrios cadveres apresentam tiros na testa e dois dos mortos tiveram a cabea destruda por tiros. Alguns sem-terra tm marcas de plvora no rosto, indicando que podem ter sido mortos por disparos  queima-roupa, e outros levaram tiros certeiros no corao. "Infelizmente, h fortes indcios de que houve execues", conclui o advogado Perclio Neto, um dos dois membros do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana enviados ao Par pelo ministro da Justia, Nelson Jobim, para investigar o massacre. Para Perclio "no h dvida de que a PM cometeu um crime."

Imagens feitas pela TV Liberal do Par durante o conflito mostram que os policiais militares chegaram  rea onde os sem-terra estavam acampados na rodovia PA-150, disparando bombas de gs lacrimognio. Os agricultores reagiram atirando pedras e partindo para cima dos policiais com faces e cacetes. Os policiais reagiram atirando com fuzis e metralhadoras. Pelo menos dois militantes do Movimento dos Sem Terra estavam armados de revlveres, segundo as imagens da TV.

Desobstruo - Os sem-terra foram mortos no final da tarde de quarta-feira. O conflito comeou pouco depois das 16h, quando 150 policiais militares chegaram  rea onde estavam acampados cerca de 1.500 sem-terra. O objetivo era for-los a desobstruir a rodovia PA-150, que tinham ocupado para protestar contra o atraso na desapropriao de terras para reforma agrria.

O secretrio de Segurana do Par, Paulo Sette Cmara, disse que autorizou os policiais a agirem "com a fora necessria" para forar os sem-terra a deixarem a estrada. "Se encontrassem resistncia, eles estavam autorizados a reagir e inclusive a atirar se isso fosse necessrio. O segredo era dosar a fora. Pelos resultados, houve excesso no esforo policial". O major Pantoja de Oliveira, que comandou a operao, foi afastado ontem do comando do batalho de Marab.

Segundo os sem-terra que esto feridos em hospitais de Marab, a polcia j chegou  rea atirando. "Eles no deram nenhum aviso. Cercaram a gente e foram metendo bala", diz o agricultor Enos Pereira Brito, baleado no p direito e na perna esquerda.

Algemado -Maria Abadia Barbosa, de 57 anos, que levou dois tiros na parte de trs da coxa, acusa os policiais de terem assassinado Oziel Pereira, um dos lderes do movimento dos sem-terra. "O Oziel j estava preso, algemado, e continuou apanhando. A, um dos policiais segurou ele pelos cabelos e outro atirou bem na cara dele", conta.

Josimar Pereira Freitas, outro sem-terra ferido, diz que viu Oziel ser algemado pelos PMs. "Ele estava vivo quando prenderam ele. Depois apareceu com um tiro na cara", denuncia.

A Polcia Civil do Par estima que pelo menos 36 sem-terra estejam feridos, mas o nmero de vtimas pode chegar a 50. Os 19 corpos dos sem-terra foram levados para Marab e s chegaram ao IML s 7h05 de ontem, mais de 12 horas depois do encerramento do conflito. Os cadveres chegaram em um caminho e foram empilhados em uma sala do IML, com a porta aberta. Os legistas s chegaram ao IML s 16h, quase um dia inteiro depois das mortes.

O ministro Nelson Jobim esteve em Marab ontem, mas no chegou a sair do avio. Ele deixou na cidade como representantes dois integrantes do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana e o assessor de imprensa do ministrio. Jobim seguiu para Belm onde foi se reunir com o governador Almir Gabriel (PSDB).

